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Entrevista GAZETA HOJE

04/07/2018

 

 

Entrevista com o Dr. João Bourbon sobre o perigo dos atletas de finais
de semana


Você costuma bater aquela pelada no final de semana apenas nos fins de
semana? Está querendo perder peso e procurando uma atividade física ou
esporte? Está fazendo caminhada ou pretende começar? Lembre-se: as
lesões na corrida não são exclusivas dos atletas de alto nível ou amadores,
elas afetam também a parcela da população que pratica atividade física
apenas no sábado e/ou domingo. Essas pessoas são conhecidas como:
atletas de fim de semana.
Quem nunca se deparou com uma pessoa que fala que pratica esporte, mas
quando indagamos qual atividade física ela faz a resposta é: ando todos os
fins de semana no parque, passeio com o cachorro, corro por 30 minutos aos
sábados e domingos, entre outros? É provável que essa pessoa reclame na
segunda-feira de dores musculares, ou então sinta dificuldade em andar e
agachar, além de sentir a perna “pesada” e “dura”.
Atualmente muito se fala sobre as lesões musculares de atletas de alto nível,
ou então de profissionais e amadores que correm sem uma equipe de apoio,
formada por fisioterapeutas e médicos que possam orientar o atleta no caso
de contusão. Mas dentro desse quadro a pior situação é do atleta de fim de
semana, já que ele deve tomar mais cuidado, porque a falta de treinamento o
expõe a lesões ainda mais complicadas.
Por isso, hoje, vamos conversar com o médico ortopedista e especialista em
cirurgias no joelho pela USP Dr. João Bourbon de Albuquerque II. Dr. João
Bourbon é ainda mestre pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em

ortopedia pela USP-Ribeirão Preto.

 

 


Gazeta hoje: Dr.João, o que acontece com as pessoas que praticam esporte
só nos finais de semana?
Dr. João Bourbon: Em primeiro lugar, é importante destacar que ao tomar a
decisão de iniciar atividades esportivas, uma pessoa deve realizar um
planejamento prévio. Esse planejamento deve incluir a decisão sobre a
modalidade esportiva desejada, o local onde a atividade será praticada, a
frequência com que realizará tal prática e o material necessário para a prática
segura da modalidade. De posse de tais informações e ainda dentro da fase
de planejamento, é recomendado que alguns especialistas médicos (como
um cardiologista e um ortopedista) sejam consultados sobre a possibilidade
de realizar a atividade desejada. O objetivo disso é realizar uma avaliação
completa (talvez até com a realização de alguns exames) dessa pessoa de
forma a determinar a sua real condição cardiovascular e a saúde de suas
articulações, por exemplo. Com isso, é possível definir estratégias para
preparar a pessoa para a atividade, minimizando, assim, os riscos.
Quando a atividade física é realizada de maneira planejada e
responsável, são grandes os benefícios obtidos: controle do peso corpóreo,
preservação da massa óssea e aumento da massa muscular, diminuição da
possibilidade de ocorrência de doenças crônicas, como a hipertensão e o
diabetes, ou melhor controle dessas doenças crônicas quando já
diagnosticadas, além da redução do risco de mortalidade cardiovascular e da
mortalidade por alguns tipos de câncer, entre outros. A Organização Mundial
de Saúde (OMS) recomenda que indivíduos entre 18 e 64 anos realizem pelo
menos 150min/semana de atividade física com intensidade moderada ou 75min/semana, com intensidade vigorosa,

ou combinações equivalentes. Não
existe uma definição clara sobre a melhora forma de realizar essas
atividades, de forma que podem ser realizados 30min/dia por 5 dias ou de
forma concentrada no final de semana.
Um estudo publicado na revista JAMA no início de 2017 mostrou que
também podem ser obtidos os benefícios mencionados anteriormente com
atividades físicas planejadas e intensas, quando realizadas apenas no final
de semana (1 ou 2 dias na semana). O que acontece, porém, é que apenas
1-3% dos atletas de final de semana realizam práticas planejadas de acordo
com a recomendação da OMS (dados dos Estados Unidos).
A maioria dos atletas de final de semana realiza atividades de forma
irregular e sem planejamento, muitas vezes sem o material apropriado.
Imagine, por exemplo, um ciclista que pedala sem os equipamentos de
segurança. As lesões são, sem dúvidas, mais frequentes nesse cenário. Vale
ressaltar que o tipo de lesão varia não somente de acordo com a modalidade
que se pratica (riscos inerentes ao esporte em si), mas também com a
intensidade com que é praticada, com o número de horas praticadas, com a
experiência/preparo de quem pratica e com o ambiente (local, condições
climáticas, entre outros aspectos) em que o esporte é praticado.
Praticantes irregulares de futebol estão mais sujeitos a lesões
musculares, predominantemente na região posterior da coxa, além de
entorse de tornozelo e joelho. Os praticantes irregulares de vôlei podem
sofrer lesões no ombro. Existe, ainda, o risco de morte súbita secundária a
alterações cardiovasculares, com ocorrência de 5 a 17 novos casos para
cada 1 milhão de pessoas/ano (o que é maior do que se imaginava), sendo
90% ocorrendo nos atletas recreacionais.

GH: é verdade que as articulações dos membros inferiores são as que mais
sofrem com a sobrecarga do peso?
Dr. João Bourbon: Sem dúvida. As articulações do quadril, joelho e
tornozelo são as que suportam o peso do corpo humano. Desta forma, um
excesso de peso pode promover danos a estas articulações, especialmente
às articulações do quadril e do joelho, que são grandes articulações que
concentram carga. Durante uma atividade de corrida, por exemplo, cada
joelho chega a suportar peso equivalente a 5 a 6 vezes o peso corpóreo da
pessoa. Se esta pessoa está acima do peso, portanto, cada joelho seu
suportará ainda mais carga.
Além disso, osteoartrose dos joelhos, quadro caracterizado por desgaste dos
joelhos, ocorre de forma mais pronunciada em pessoas com excesso de
peso.
Ainda, a coluna vertebral (especialmente a região lombar) também sofre
danos no caso de excesso de peso, não só pelo carga suportada, mas em
virtude de deslocamento do centro de gravidade da pessoa para anterior
(aumento do volume do abdome) e mudanças no alinhamento da coluna.
Finalmente, as articulações dos membros superiores não realizam o suporte
de carga, mas também sofrem com o excesso de peso, uma vez que quadros
inflamatórios em geral (como as tendinites) são mais prevalentes nas
pessoas com peso excedente.

GH: Quais são as lesões mais comuns dos atletas de fim de semana?

Dr. João Bourbon: Podem ocorrer desidratação e ensolação, tendinopatias
(transtornos dos tendões), lesões musculares, lesões ligamentares, luxações
(deslocamento de uma articulação), fraturas e até lesões mais graves e
potencialmente fatais, como lesões da medula vertebral, traumatismo crânio-
encefálico (TCE) e as lesões cardiovasculares. As lesões musculares são as
mais prevalentes, de uma forma geral. Ocorrem predominantemente nos
músculos da coxa, sendo os músculos adutores (parte interna da coxa) e os
músculos isquiotibiais (região posterior da coxa) os mais acometidos. Mas,
como anteriormente dito, cada esporte tem suas características peculiares,
seus riscos inerentes e suas lesões mais comuns.

GH: Quais os cuidados que deve tomar uma pessoa que só pratica atividade
física uma vez por semana?
Dr. João Bourbon: Além dos cuidados já abordados, como o planejamento
pré-atividade incluindo avaliação médica, esses atletas devem
preferencialmente usar roupas leves e confortáveis e calçados apropriados.
Devem ainda escolher minuciosamente o local onde o esporte será praticado,
evitando os horários de pico de radiação solar e maior calor. Se a atividade
for ao ar livre, lembrar de usar filtro solar, reaplicando o mesmo a cada 2
horas para adequada proteção. Antes da atividade, recomenda-se realizar
um aquecimento por pelo menos 15 minutos. Durante a atividade, o atleta
deve manter-se hidratado e atentar para sinais de desconforto no corpo ou de
que algo não vai bem.
Não se recomenda persistir com a atividade em caso de dor muscular
ou articular, desconforto respiratório, dor torácica, fadiga excessiva e tontura.
Sintomas incomuns devem levar o atleta a procurar atendimento médico
imediato. Após a atividade, ingerir líquido a vontade e realizar alongamento
global do corpo (o maior número de grupamentos musculares possível). Para
ser efetivo, o segmento deve ser mantido na posição de alongamento por
pelo menos 20 segundos. É importante que as pessoas lembrem que a
progressão na atividade deve ser lenta e gradual, mantendo, acima de tudo,
a satisfação em realizar o exercício.

GH: quais são as partes do corpo que mais sofrem com isso?
Dr. João Bourbon: Cada modalidade esportiva exige mais de uma
determinada parte do corpo. O futebol exige muito dos membros inferiores,
com mais lesões nas coxas e nos joelhos. Vôlei e basquete também exigem
dos membros superiores, sendo comuns lesões no ombro, cotovelo e nas
extremidades (trauma nos dedos). No tênis, também são comuns lesões dos
membros superiores, sendo o cotovelo um sítio de inflamação recorrente.
Modalidades como a ginástica artística trazem grandes cargas para os
punhos, tornozelos e para a coluna. Na corrida de rua, as lesões decorrentes
de impacto nos membros inferiores e as lesões musculares também são
comuns. O risco de lesões pode ser diminuído com o planejamento
mencionado e preparo adequado. Cabe salientar que os riscos decorrentes
do sedentarismo superam e muito o risco da atividade física bem planejada.

GH: pessoas comuns devem ser moderadas com as atividades nos finais de
semana?

Dr. João Bourbon: Sem dúvida. Todo início deve ser planejado e toda
progressão, lenta e gradual.

GH: Dr. João, o senhor, médico ortopedista, recomenda alguma forma
dessas pessoas não sofrerem danos a saúde com essas atividades sem
acompanhamento e só nos finais de semana?
Dr. João Bourbon: Além de todos os cuidados já discutidos, ressalto a
importância de sempre buscar orientação antes de iniciar as atividades
físicas. É muito comum que as pessoas peguem conselhos de amigos e
vizinhos, em virtude de serem mais acessíveis. No entanto, se essas pessoas
não tiverem formação adequada, suas dicas podem ser realmente perigosas.

GH: existe algum medicamento, ou alimento que possa fortalecer os ossos,
músculos para ser um escudo para lesões?
Dr. João Bourbon: Medicamentos com essa finalidade não são prescritos de
rotina para o atleta comum. Medicamentos para preservar a massa óssea,
por exemplo, estão indicados apenas para pacientes com osteopenia e
osteoporose (geralmente isso ocorre em pessoas com mais idade), devendo
ser prescrito somente por um médico (reumatologista, endocrinologista,
geriatra ou ortopedista). Suplementos protéicos devem ser usados com
cautela, de preferencia se recomendados por um médico nutrólogo ou
endocrinologista, em virtude do risco de distúrbios, especialmente renais, que
encerram.
O que se recomenda é que o atleta mantenha uma dieta saudável,
dando preferencia a alimentos naturais (da terra): arroz, feijão, verduras e
legumes, carne, frango, ovos e peixe. As folhas mais verdes, o leite e a
sardinha são exemplos de alimentos ricos em cálcio. Evitar o consumo de
refrigerantes, pois dificultam a absorção de alguns nutrientes e contribuem
para enfraquecimento ósseo, e bebidas alcóolicas em excesso. Fumar é um
hábito que deve ser combatido, pois além dos diversos males que o cigarro
causa (como diversos tipos de câncer, por exemplo), ainda pode contribuir
para a sarcopenia (redução da massa muscular) e osteopenia (redução da
massa óssea).

GH: Qual o melhor terreno para se fazer uma caminhada? Uma pista de
Cooper? Um terreno com ladeiras? A areia da praia?
Dr. João Bourbon: Caminhada e corrida são excelentes exercícios para se
realizar ao ar livre. Recomendo que escolham locais conhecidos, de
preferência longe dos perigos urbanos. Se você tem mais idade, prefira
terrenos planos (calçadões asfaltados ou grande campos) idealmente não
acidentados (buracos e relevos), pelo risco de quedas. Evite exercícios de
impacto (corridas e saltos) em demasia se você já tem problemas nos
quadris, joelhos e tornozelos já conhecidos.
Por outro lado, se você é jovem ou se já é um(a) senhor(a), mas está
bem preparado(a), um trajeto com ladeira com tênis apropriado ou uma
corrida descalço na areia representam um desafio maior e podem trazer mais
intensidade à sua atividade. Lembre-se de realizar a mudança da mão de
corrida (inverter o sentido no mesmo trajeto) com o objetivo de minimizar a
possibilidade de ocorrência de lesões crônicas por esforço repetitivo. Tênis

de corridas devem ser substituídos com alguma frequência, pois com o
tempo perdem a capacidade de absorver o impacto.

 

*Dr. João Bourbon é médico ortopedista e
especialista em fraturas e cirurgia do joelho (pela USP), mestre pela
Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Doutor em ortopedia pela USP.
Atende na Prontoclínica Ortopédica e na Clínica San Giovanni.



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